18 Setembro 2006

Mario Quintana

Talvez as coisas fossem melhor se se olhasse mais, e se falasse e se escreve menos...

O MORTO
Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco,
Já eram horas de dormir de novo!

DA DISCRIÇÃO
Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...

DOS MILAGRES
O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloqüência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!

POEMINHA SENTIMENTAL
O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Poemas de Mario Quintana

15 Julho 2006

Picaretation World

Em um dos seus textos, Heidegger fala sobre a angústia e explica que, apesar de ninguém saber descrevê-la exatamente, todo mundo sabe quando a tem. Quer com isso falar sobre o nada e, confesso, não entendi direito. Seja como for, ficou essa explicação da angústia.
No outro post foi feita a dissecação do pseudo-intelectual. Mas se é possível, por um lado, saber quem é um pseudo-intelectual, como, por outro lado, será possível saber quando se está diante de um intelectual? A partir de que momento alguém pode se dizer: "sim, é verdade, querida, eu sou um intelectual"? (claro, sem entrar no mérito de se é bom ser ou não).
Compreendo que todos são capazes de identificar a angústia, porque, afinal, qualquer um já teve um nó na garganta ou coisa do tipo. Mas reconhecer um intelectual? Ora, o menos intelectualizado nunca conseguirá avaliar um verdadeiro intelectual, por uma questão de hierarquia. Então somente o mais intelectualizado poderá dizer que um menos intelectualizado é um intelectual. Mas nunca dirá, porque para ele, o menos intelectualizado, por ser menos, será sempre, no fundo, um pseudo-intelectual.

Ficamos, assim, num mundo de picaretagens. Como diria o poeta, "Eta vida besta, meu Deus!".

14 Julho 2006

Rolling... down, baby, down.

"You can't always get what you want,
but if you try sometimes,
you just might find,
You get what you need"

Rolling Stones. Havia uma propaganda da Motorola, num cenário sombrio, e tinha uma ave, e apareciam celulares e tocava essa música. Não entedi o que a ave e o celular faziam juntos, e a letra da musica... Achei meio confuso. Será que queria dizer que não se pode ter tudo, mas um celular sim? Será que queria dizer que, se não podemos ter o melhor celular, ao menos podemos ter um celular necessário, um motorola? Talvez quisessem dizer outra coisa... A propaganda era bonita e dava um negócio na gente. Mas não era um negócio provocado pelo conteúdo da publicidade (uau, um Motorola!); vinha de outra coisa.
Vejo publicitários respeitados falando que a propaganda está em crise - só há produção. Acho que é um exempo disso: a propaganda é atraente, mas não vende o produto, não há uma boa idéia por trás.
Escrevi isso tudo, mas queria falar só do "negócio" que dá na gente. No meio da letra da música, no momento mais arrebatador, tem uns acordes que nos fazem crer que a vida é maravilhosa e que venceremos em tudo - tem uns violinos, parece, ou algo do tipo - uma coisa divina. Mas o final do refrão fala em ter o que se precisa. É a conclusão da música.
É por isso que não se vai pra frente, penso eu. Como o Diabo, somos sempre traídos pelos ímpetos magnânimos. Basta um acorde para sentirmos que somos criaturas especiais no mundo. Depois vêm nos dizer que somos criaturas ricas de espírito....

10 Julho 2006

Sobre Algumas Conversas

"Todo otimista é um mal-informado".
Frase daquele que amedrontava as criancinhas na TV com seus fundo-de-garrafa e voz de tarado. Paulo Francis. Apenas para relembrar algumas conversas que tive nos últimos dias.
Uma frase e tanto, que dispensa digressões. Cômica, se não fosse trágica.

08 Julho 2006

Poesia 1 - Obesidade Mórbida ou Um Poema Proseado*

“Nós que aqui estamos, por vós esperamos” é o slogan do bom cemitério. As carnes decompostas, consumidas pelos vorazes vermes kamikases, anunciam o veredito inexorável de todo homem: a entrega dos olhos para a terra comer.

Ao cabo de tudo, todos seguem a Lei de Lavoisier: rumo à eterna transformação, à constante selvageria das necessidades do consumo. Nos consumimos a todos numa autofagocitose que processa a mesma matéria miserável de sempre: o altivo corpo pútrido…
A cachaça do bagaço do homem mastigado é amarga e corrosiva, matadora implacável da desavisada erva daninha que julgava ser a cova um bom lugar para ali nascer.
A rosa nasce do esterco, mas dos nutrientes da cova nem mesmo a existência de uma erva daninha se permite cogitar. No buraco negro do homem-cadáver, a via expressa de energia corre cegamente numa só direção: ao íntimo do próprio âmago, este invariável obeso mórbido.
Leo Tessler, Jun/2004.
* sim, sim, eu sei, desculpa. Antes fosse Augusto dos Anjos.

07 Julho 2006

Anatomia de um Pseudo-Intelectual

Clique na foto para dissecar
Alguns se vangloriam de ler vários livros ao mesmo tempo; outros fazem tipo desdenhando autores clássicos. Eu me vanglorio de ser o maior leitor do mundo de primeira página de livro. Já li várias delas.... e prefácios também. Adoro prefácios, apresentações e textos de orelha. E foto de autor na contracapa também. Mas ler mesmo, tudo lido, da segunda em diante, ... (preguiça)
Há muitos anos, a Revista Veja fez uma matéria dando dicas para um pseudo-intelectual mostrar erudição para o chefe. Dizia que não era preciso ler todas as obras para se mostrar culto. O negócio era obter e esquematizar informações do autor (datas, locais) e da história (isso serviria para as demais artes também): saber o nome dos personagens, o desfecho. Assim, se numa conversa de festa da empresa o chefe falasse em Machado de Assis, por exempo, bastava encaixar no diálogo as palavras-chave: Bentinho, Capitu, traição; Brás Cubas, relatos de um morto, escola Realista, 1888. Se falassem de Fernando Pessoa: tudo vale a pena se a alma não é pequena; mensagem, heterônimos, Modernismo português. E vice-versa: se o chefe, querendo aparecer, emendasse um "tudo vale a pena se a alma não é pequena", bastaria concluir: "como já dizia o poeta português".
Agora façamos as contas: imaginando que se viva em média 85 anos; destes, que se começasse a ler coisas aos 15 - seriam 70 anos de leitura, portanto. Supondo, por fim, uma façanha de 1 livro por semana, chegaríamos à marca de 3.360 livros ao final da vida.
Daí pergunto: existiria neste mundo, verdadeiramente, um intelectual, ou estamos de fato rodeados de farsantes embotados e impostores exacerbados? Não sei, mas me parece que quem tem razão, mais uma vez, é o Augusto dos Anjos, ao profetizar que não somos nada mais, nada menos, que pretensiosos filhos do carbono e do amoníaco...

05 Julho 2006

Brasil, ainda o País do Futuro!


Os Le Bleus: Zidane, ao centro, e seus aceclas

Sim, perdemos de novo, mesmo com o bravo exército aliado. Os brioches seguem! Mas ainda que vençam, é importante lembrar que será um título conquistado com 46 anos de atraso, já que vencemos o bi em 62 (coisa do século passado). Aliás, o mesmo período de atraso da retardatária Argentina (que se mantém em subdesenvolvimento há 20 anos).
A propósito, melhor que vençam os petit foie, porque a tristeza pela eliminação logo passará, mas um quattrocento, ainda que conquistado com um atraso de 12 anos, ficará pro resto da vida.
E no fundo foi bom variar os times na final das Copas. Esse negócio de ser sempre o Brasil e mais um já estava ficando sem graça.
Era, enfim, o que queria dizer. Foi meu último comentário sobre a Copa. Juro.